A história de Sorín no Cruzeiro começou em 2000 com uma transferência recorde e terminou nove anos depois com mais de 40 mil torcedores no Mineirão despedindo de um argentino que havia se tornado celeste de alma. Juan Pablo Sorín, com a cabeça enfaixada após um choque, dentro de campo, raça no olhar e a camisa azul no peito. A cena é da Copa Sul-Minas de 2002, contra o Atlético-PR, e esse lance virou metáfora perfeita do que o argentino representou na Raposa: entrega sem reservas, em qualquer jogo, em qualquer situação. Em 2000, ele levantou a Copa do Brasil como capitão, com Fábio Júnior e Geovanni fazendo os gols da virada sobre o São Paulo no Mineirão. Sorín não precisou marcar na decisão para se tornar o rosto daquele título.
Contratado como a transferência mais cara da história do clube naquele momento, o lateral-esquerdo argentino construiu uma relação com o Cruzeiro que foi além de qualquer número. Três passagens, quatro títulos, 126 jogos e 18 gols, uma trajetória que poucos estrangeiros repetiram com a camisa celeste.
Sorín no Cruzeiro: a chegada que a torcida não esperava em 2000
O Cruzeiro pagou US$ 5,1 milhões ao River Plate por um lateral-esquerdo de 24 anos. Na época, era o valor mais alto já investido pelo clube em uma contratação. Sorín chegava com DNA de liderança formado em Buenos Aires e com a reputação de um jogador que não se contentava em apenas defender. Era atacante com carteira de lateral, e o torcedor logo percebeu isso.
O encaixe foi imediato. Em poucos meses, Sorín era titular absoluto, capitão em campo mesmo sem a faixa oficial, e o torcedor já o reconhecia pelo nome. Seu estilo misturava imposição física, força aérea excepcional para um lateral e uma vocação ofensiva que criava desequilíbrios pela esquerda. O projeto cruzeirense do início dos anos 2000 tinha ambição, e Sorín era a personificação disso.
Os títulos e os números que transformam um jogador em ídolo
A Copa do Brasil 2000 chegou logo na primeira temporada. Na final contra o São Paulo, no Mineirão, Sorín atuou como capitão de uma equipe que virou o placar no segundo tempo: Fábio Júnior aos 80 minutos e Geovanni nos acréscimos. O argentino não marcou na decisão, mas conduziu o time com a autoridade de quem havia sido o fio condutor de toda a campanha. Aquele título encerrou um jejum e abriu um ciclo.
Em seguida vieram as duas conquistas da Copa Sul-Minas, em 2001 e 2002. Nessa segunda edição, Sorín chegou a balançar as redes em momentos decisivos, reforçando uma característica rara para laterais da época: presença ofensiva constante e capacidade de decidir jogos importantes. Sorín alcançou essa marca em três períodos não consecutivos, com uma consistência que poucos jogadores nessa posição reproduziram com a camisa celeste.
Os títulos dessa primeira passagem somam três em menos de dois anos e meio, números que, por si sós, já garantiriam um lugar na memória da torcida. Sorín, porém, foi além do que as estatísticas conseguem registrar: construiu uma identidade com o clube que sobreviveu às distâncias e às décadas.
Sorín no Cruzeiro: o retorno em duas fases e um amor que a distância não apagou
Ao final de 2002, o Cruzeiro vendeu Sorín à Lazio por cerca de US$ 9,5 milhões. A crise financeira do clube italiano, agravada pela falência da patrocinadora Cirio, impediu o pagamento integral da transferência. O resultado foi um retorno precoce ao Brasil: em 2004, Sorín voltou ao Cruzeiro em condições pouco comuns, ainda em meio à instabilidade europeia. A passagem foi curta, com poucos jogos, mas significativa por uma razão simples: quando precisou de equilíbrio, o argentino escolheu a Raposa.
Depois de passagens por Barcelona, PSG e Villarreal, Sorín chegou ao Hamburgo e encerrou o ciclo europeu. Em agosto de 2008, assinou pelo Cruzeiro em transferência gratuita, aos 32 anos, para encerrar a carreira onde havia construído seu maior legado. A terceira passagem durou até novembro de 2009 e rendeu mais um título: o Campeonato Mineiro de 2009. Quatro títulos no total, em três períodos distintos, com o mesmo compromisso de sempre. (Veja também o perfil de Juan Pablo Sorín na Wikipedia.)
Em 5 de novembro de 2009, mais de 40 mil torcedores foram ao Mineirão para um amistoso de despedida contra os Argentinos Juniors. O Cruzeiro venceu por 2 a 1. A torcida celeste prestou homenagem ao jogador que havia escolhido o clube três vezes ao longo de quase uma década, uma fidelidade rara num futebol cada vez mais movido por contratos e cláusulas.
O que Sorín deixou na memória celeste e por que isso não tem prazo de validade
Entre os maiores ídolos estrangeiros da história do Cruzeiro, Sorín ocupa um lugar especial. Giorgian De Arrascaeta e Marcelo Moreno superam seus números em gols e jogos, mas poucos construíram a mesma identificação emocional com a camisa azul. A diferença está em algo que as estatísticas não capturam: a postura de capitão, o sacrifício visível em campo e a fidelidade ao clube em três momentos muito diferentes da carreira. Essa lista de estrangeiros que se tornaram referência é amplamente lembrada em compilações sobre os maiores ídolos estrangeiros do Cruzeiro.
Sorín tratou a camisa celeste como se fosse sua por direito de nascença. Voltou quando precisou de estabilidade, voltou quando quis se despedir com dignidade. Essa narrativa em três atos é rara no futebol moderno, onde transferências seguem quase exclusivamente a lógica financeira. Por isso o argentino ainda é lembrado com reverência por torcedores que acompanharam aquela geração e por jovens que conheceram a história através de compilações e relatos.
No Radar Cruzeiro, histórias como a de Sorín no Cruzeiro encontram o espaço que merecem: com cronologia precisa, dados verificados e o contexto que a cobertura generalista não oferece. Porque a Raposa tem uma história rica demais para ser resumida em manchetes.
Um legado que 126 jogos e quatro títulos apenas começam a explicar
Sorín no Cruzeiro é uma história de três atos e uma mesma constante: entrega. Do US$ 5,1 milhão pago ao River Plate em 2000 até o amistoso de despedida no Mineirão em 2009, o argentino demonstrou que vínculos reais entre jogador e clube se constroem em campo, não em coletivas de imprensa. O que fica não são apenas os quatro títulos ou os 18 gols. É a imagem do homem com a cabeça enfaixada que se recusou a sair do jogo, e que voltou ao clube três vezes porque, para ele, havia algo além do contrato.
Para quem quer entender o Cruzeiro além do placar, o Radar Cruzeiro segue contando essas histórias com a profundidade que a Raposa sempre exigiu, e que ídolos como Sorín ajudaram a construir (veja também Alex no Cruzeiro: Títulos, Gols e Legado do Camisa 10, Radar Cruzeiro).